Dora Valente

dora_cdaDora veio de uma infância num lar destruído e transportou todas as frustrações e violência para a vida adulta, levando-a a ter vontade de acabar com a própria vida…

Vim de um lar destruído e com cerca de seis anos já tinha presenciado a separação dos meus pais. O meu pai agredia a minha mãe e eu e o meu irmão presenciávamos toda aquela situação.
A violência a que assistimos durante a nossa infância, acompanhou-me no meu crescimento, passando eu própria a viver mais tarde num ambiente violento. Numa determinada altura não consegui aguentar mais e tentei cometer suicídio, tomando comprimidos. Tinha apenas 15 anos.
Depois de tomar os comprimidos, na manhã seguinte acordei e fiquei admirada por estar viva, e vi ali uma oportunidade que Deus me deu para mudar!
Na altura, nunca ninguém soube o que fiz e a minha mãe só veio a saber do ocorrido anos depois, quando eu já era adulta.
Tive no meu seio familiar muitos problemas, agressões… e tudo se acumulou dentro de mim, criando revolta.
Além disso, tanto o meu irmão como a minha mãe eram muito doentes. Via a minha mãe que não podia tomar conta de mim, nem fazer qualquer tipo de tarefa doméstica.
Foi nestas condições que cheguei ao Centro de Ajuda, muito sofrida!”, conta Dora.

Dificuldades e uma luta interna
“Estava ansiosa para sair de casa e queria casar-me para sair daquele ambiente. Mas a situação só piorou, porque quis relacionar-me com alguém apenas para sair daquele sofrimento. Era infeliz em casa, no trabalho e no namoro. Sofria em todas as áreas.
Queria mudar a história da minha família. O processo não foi imediato mas não desisti! Passei por muitas dificuldades e foi uma grande luta interna.
Passado alguns meses, decidida, acabei o namoro. Pedi transferência da minha empresa para uma outra e fui embora, porque eu já tinha determinado que queria um salário justo tendo em conta a licenciatura que tinha tirado e não aceitava estar a mendigar.
Dava aulas, mas também tinha que limpar locais que estavam em obras e casas de banhos sujas… não aceitava aquela vergonha!
Sempre a acreditar que Deus um dia iria honrar-me, deixei tudo
para trás.
Não tinha dinheiro para pagar a renda da casa. Mudei de casa várias vezes e uma das casas só tinha um colchão e um armário a cair aos pedaços. Fui mordida por bichos por dormir naquela situação. Cheguei a passar fome, a ponto de ter apenas um pedaço de pão podre para comer”, recorda.

A mudança na vida de Dora
“Tinha muitas mágoas no meu coração e não queria admitir que as tinha, e isso fez-me chegar ao fundo do poço. Reconheci, voltei-me para Deus e lutei para mudar, pois não aceitava mais continuar naquela situação.
Hoje estou a viver numa casa a três minutos da praia e fui morar para o local com que sempre sonhei. Eu que não tinha móveis, hoje tenho a casa totalmente mobilada com tudo do melhor.
Tenho o salário que considero justo, sou uma professora realizada e as pessoas têm consideração por mim no meu local de trabalho. A minha família mudou também. Cumpri quase todos os meus sonhos e o último está a chegar. Hoje sou feliz!”, afirma.

Dora Valente, CdA de Trajouce (Largo do Rossio Pequeno, nº 2, S. Domingos de Rana)