A vontade de compartilhar

shutterstock_159858161“O braço é meu, quem cortou fui eu. O sangue é meu. Então, se eu quiser me cortar toda, eu me corto.”

Essa foi a citação de uma adolescente de 12 anos em sua rede social. A mensagem foi descoberta pela mãe, ao ler o bate-papo que a garota tinha com as colegas da escola em que estuda, na cidade de Uberlândia, Minas Gerais.
O caso veio a público, em março desse ano, após a mãe da estudante procurar a direção da escola, questionando a suspeita de que a menina, juntamente com outras colegas, usaram lâminas para praticar automutilação.
O ocorrido é preocupante e o aumento no número de casos da prática da automutilação, ou Cutting, como também é conhecida tem sido relevante. Estudos revelam, considerando apenas adolescentes e jovens adultos, que cerca de 20% tiveram algum momento na vida, tal comportamento. Os casos ocorrem, em sua maioria com meninas, e tem se proliferado de forma expressiva através da internet. Em uma breve busca em navegadores de pesquisa ou no Facebook, encontramos diversas páginas de incentivo ao ato, com frases bastante sugestivas, como “morri por dentro e ninguém percebeu”. As páginas possuem milhares de inscritos e curtidas.
Modismo ou alívio emocional?
Os cortes pelo corpo e a tentativa de escondê-los, são os principais sintomas desse fenômeno reconhecido como um transtorno mental pela psiquiatria. As lesões não são causadas como tentativa de suicídio, nem como forma de chamar a atenção. Representam, para a adolescente que pratica, uma forma de controlar suas emoções.

Camilla Suellen, de 18 anos, explica como se sentia quando começou a praticar o Cutting, quando tinha 13 anos de idade:

“Sentia vontade de me cortar. Passava a faca em meu braço, nas minhas pernas, só pelo prazer de sentir aquela dor. Era uma forma de aliviar a dor emocional que sentia toda vez que via meus pais brigando, por exemplo. Tudo que acontecia de ruim, era motivo para que eu me cortasse e ferisse meu corpo.”

As marcas dos ferimentos que Camilla causou em si mesma sumiram com o passar dos anos, mas ainda existem as lembranças do pesadelo que viveu. Ela conta que tentava completar o vazio que sentia através da ideia de ter o controle sobre sua vida.
Essa é a motivação principal de quem começa a se automutilar. Um fator exterior, como um acesso de raiva, por exemplo, a jovem se fere sem querer e percebe que com a dor física sente um certo alívio.
A prática que se torna um vício
A automutilação sempre está associada a outros problemas emocionais e psicológicos, como ansiedade, depressão, transtornos alimentares ou compulsivos. No momento dos cortes, o organismo libera endorfina. E se antes a adolescente procurava motivos para se cortar, ela passa a desejar a sensação boa causada por esse hormônio, independente de estar deprimida ou feliz. O vício se instala e o perigo de graves consequências só aumenta.
Palestra para público alvo

Acompanhando o crescimento alarmante do Cutting, Lucelaine Araújo, responsável pelo trabalho do Grupo Godllywood na Argentina, realizou o Evento “Por ti misma”, que ocorreu no final de julho, em Buenos Aires, com transmissão para todo o país.
A palestra recebeu cerca de 300 convidadas que enfrentam o transtorno e aceitaram o convite
para conhecer histórias de mulheres que viveram o mesmo problema.

Yamila Castaño, de 21 anos, relatou como começou com as sessões de autoagressão após sofrer bulling na escola, aos 11 anos de idade.

“Eu tinha muitos ataques de nervos, e quando tive um problema na escola, cheguei em casa e comecei a quebrar tudo. Quando um espelho se quebrou, comecei a me cortar com os pedações que caíram no chão. Senti que aquilo aliviou a dor que eu trazia dentro de mim.”

Contudo, o problema de Yamila não acabava após os cortes.

“Fiquei 3 anos praticando o cutting, e minha dor interior só aumentava”

Durante a reunião, Lucelaine Araújo procurou revelar total compreensão aos sentimentos das ouvintes, mas deu a elas uma palavra de estímulo para que mudassem a situação de suas vidas:

“Se você continuar assim, fazendo essas coisas, sabe que vai acabar muito mal. Se você decidir hoje, dentro de você que quer ser feliz, você vai ser! Quando você decidir mudar, Deus irá colocar as mãos nas suas feridas e vai te tirar dessa situação.”

Isso foi o Yamila Castaño, na Argentina e
 Camilla Suellen, aqui no Brasil, fizeram
 para reverter a situação de suas vidas. 
Elas procuraram ajuda, e encontraram a
solução, quando reconheceram que
 precisavam preencher o vazio que existia 
dentro delas.

“Eu tentava silenciar a
 minha raiva, tristeza, insegurança,
através da agressão que me fazia passar.
 Foi preciso eu reconhecer que meu
 problema era interior, e que nada que eu
 fizesse exteriormente em meu corpo, aliviaria a dor da minha alma.”

No final do evento, realizado na Argentina, esposas de pastores prestaram atendimento e passaram a acompanhar de perto todas que estiveram presentes. O acompanhamento à essas jovens é essencial para ajuda- las a dar nomes às suas emoções, encontrar formas saudáveis e adequadas para lidar com seus conflitos e angústias. Os ouvidos atentos a esses pedido de socorro, levam essas meninas a aumentarem sua autoestima e aprender a dar o devido valor a si mesmas.

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