Cris 1994

IMG_1102Cape Town, a cidade do Cabo, é uma das cidades mais lindas que eu já conheci. Ela tem tudo que eu aprecio demais: montanhas, mar, florestas, variedades de flores, animais e um povo humilde. Viajamos quase um dia inteiro de carro, de Johannesburg à cidade que moraríamos por apenas um ano, e nós não estávamos sozinhos. Minha família inteira foi.

Todas as manhãs, nos reuníamos na sala de estar para meditar na Palavra de Deus e orar… era tão bom! Parecia um sonho estar morando com os meus pais novamente…

Fomos abrir o trabalho da igreja em Cape Town, o que quer dizer que não tínhamos membros nem obreiros lá, isso fez o nosso trabalho ser mais gostoso ainda, já que tínhamos de fazer tudo. Lembro-me da nossa família inteira ir evangelizar com o jornalzinho da igreja na estação de ônibus e ficar maravilhada em ver que o povo apreciava aquilo… as pessoas chegavam a fazer fila para pegar o jornal!

Uma das maiores dificuldades no início foi achar um lugar apropriado para abrir a igreja. Procuramos, procuramos e nada, até que achamos um lugar bem escondido, numa rua sem saída, e tivemos que dizer: “Vai esse mesmo, se Deus é conosco, o povo vai nos achar aqui!”

E não deu outra. Inauguramos o lugar com 150 pessoas, e, em poucos meses, tínhamos 3 mil! Outros dois casais de pastores vieram nos ajudar a dar conta de tanta gente. Nós, as esposas dos pastores, éramos as obreiras, as secretárias e as faxineiras da igreja. O povo era tão simples e humilde que os milagres aconteciam aos montes, e famílias inteiras começavam a frequentar. Algumas pessoas alugavam Kombis e traziam outras tantas de sua vizinhança. Foi um verdadeiro avivamento espiritual em Cape Town, e nós sentíamos o privilégio de sermos úteis para Deus.

IMG_1100Com o crescimento da igreja, o Renato começou a se dedicar tanto que, às vezes, ele chegava a dormir na igreja. Tínhamos reuniões às 6h, 10h, 12h, 15h, 17h e 18h30. Mais tarde que isso o povo não tinha como vir porque tudo fechava às 17h. Depois da última reunião, o Renato entrava no escritório e trabalhava no jornal do mês.

Imagina você, se o Renato já não me dava atenção quando cuidava de uma igreja de 200 pessoas, e agora com uma igreja de 3 mil pessoas e um jornal mensal?

Um dia, acordei de manhã e fiquei tão revoltada com aquela situação que fui à igreja tirar satisfação com ele. Cheguei lá e ele estava tirando uma soneca no sofá, ele trabalhara a noite inteira, e eu, sem um pingo de consideração, comecei a brigar com ele. Não me orgulho nem um pouquinho do que fiz e do que ele fez comigo, ele também se arrepende muito. Naquele momento, ele só me pegou pelo braço e me colocou para fora do escritório. Foi a primeira vez que o Renato usou força comigo e aquilo me magoou muito.

Voltei para casa chorando igual uma criança. O ruim é que os meus pais iriam ver e me perguntar o que se passava comigo… uma das vezes que passei a noite chorando, não consegui disfarçar os olhos inchados no dia seguinte, e vi o quanto aquilo entristeceu a minha mãe que, por sua vez, não queria se meter no nosso casamento e não me perguntou, só veio me dar carinho. Meus pais foram verdadeiros exemplos de sogros, eles não se meteram nem fizeram a nossa convivência ainda mais difícil.

IMG_1101O ano de 1994 foi assim. Fomos muito usados por Deus para ajudar a milhares de pessoas, mas, ao mesmo tempo, foi um dos anos que mais chorei na minha vida. Chorei porque não podia contar para ninguém o que se passava comigo, tinha que ser forte, tinha que sacrificar, era uma mulher casada com um homem ausente na maioria do tempo. Acho que por ter minha família por perto, o Renato relaxou ainda mais. A família inteira ia ao cinema no sábado à noite, e o Renato ficava em casa trabalhando no jornal. E não adiantava eu ficar com ele, porque ele queria ficar só…

Amigas, quando olho para trás, penso que se eu tivesse aprendido a entrar no mundinho do Renato, eu não me sentiria tão distante dele. Claro que ele errou comigo, mas sejamos práticas, às vezes precisamos engolir o erros dos outros e ver o que podemos fazer para melhorar a situação, senão vamos ficar dependendo dos outros para que isso aconteça…

Na fé.

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