Cris 1998

063Depois que o Filipe chegou, eu deixei todas as responsabilidades que tinha na igreja para ficar em casa com ele.

Não foi uma decisão fácil, até porque eu gostava de ajudar na igreja, trabalhar nas reuniões, estar com as outras esposas de pastores, estar ao lado do meu marido, atender as pessoas, enfim… mas esse foi um dos sacrifícios que eu e Renato decidimos fazer ao adotar o Filipe. Ele precisava de uma mãe presente e foi isso que eu fui.

Passávamos o dia inteiro juntos. Quando ele ia para escola, eu então aproveitava para fazer as minhas coisas. Era eu quem o levava e pegava na escola todos os dias e, todos os dias, era eu quem ouvia as reclamações da professora. As outras mães eram todas bem mais velhas, e eu ainda aparentava mais nova ainda do que a idade que tinha. Eu não sei se era isso que as afastava de mim. Elas me evitavam, cochichavam quando eu chegava, me olhavam de cima a baixo, e eu simplesmente fingia não ver nada. Essa é uma tática que ainda uso hoje, funciona mesmo. Você não desce ao nível de ninguém, só fica no seu 🙂

A escola ficava a alguns blocos de onde morávamos, então muitas vezes íamos a pé. Na volta, o clima já não era agradável. Depois de tantas reclamações da professora, tudo o que me restava a fazer era chamar a atenção do Filipe, e isso já acabava com o nosso restante da tarde 🙁 O pior é que quanto mais a professora reclamava dele, pior ele ficava. E eu, jovem, ainda muito inexperiente no assunto de mãe, ficava frustrada com tudo aquilo. Eu me sentia culpada. Talvez pela forma que a professora falava comigo, como se eu não o disciplinasse em casa. Talvez pela forma que as outras mães me olhavam com o canto do olho. Talvez porque o Filipe não estava melhorando.

Esse é um dos piores fardos de um pai ou uma mãe, a culpa. Por mais que o filho seja um outro ser humano, com seus próprios pensamentos e suas próprias escolhas, todo pai e mãe se sente culpado pelos seus erros. Hoje eu entendo muito bem o que estava acontecendo naquela época… o Filipe tinha acabado de ser adotado, não sabia lidar com tudo que recebeu da noite para o dia… era tudo novo para ele, até mesmo a escola.

Na cabecinha dele, a escola era como o orfanato, um lugar para ele brincar e passar o tempo. Ele era bonzinho em casa, não fazia nada de errado, mas por causa das reclamações da professora, já chegava em casa de castigo, tadinho. O que piorou ainda mais a situação na escola, porque já que em casa ele não podia brincar, onde é que ele iria brincar?

É isso que muitos pais não entendem. Às vezes, a disciplina errada traz mais comportamentos errados.

Foi nessa época que o meu primo chegou a Londres. Ele tinha acabado de ser levantado a pastor e foi para Londres para aprender a fazer a Obra de Deus. Eu já tinha ouvido falar da esposa dele, a Nanda, que ela era super simpática e que eu iria gostar muito dela, mas nessa época, eu estava meio que decepcionada com amizades. Já tinha tentado fazer várias e nada, então fiquei com o pé atrás com ela no início, mas não demorou muito – ela logo me conquistou.

024-1A Nanda era diferente das demais. Ela não tinha receio de falar comigo. Na época, já que o Renato cuidava do país, por mais que eu quisesse ser amiga das demais esposas de pastores, elas se afastavam de mim, com vergonha, timidez, sei lá. Eu costumava ter que ir até onde elas estavam sentadas na reunião para estar com elas, elas não vinham até a mim. Mas a Nanda não, ela fazia questão de sentar ao meu lado. Ela me tratava como uma amiga. E em poucas semanas nos tornamos melhores amigas.

Talvez o que a Nanda mais me ajudou na época, além de sua amizade, foi o valor que ela me deu. Tudo que eu ensinava, ela aceitava, ela humildemente aprendia, e me dava feedback positivo de tudo que eu fazia. Pela primeira vez na minha vida, alguém parecia dar valor ao que eu falava… Ela torcia por mim. Tudo que eu fazia, lá estava ela me dando todo apoio. Nos meus momentos difíceis com o Filipe, ela me entendia, me dava o seu ombro amigo. Chorávamos e ríamos juntas.

Hoje eu vejo que a Nanda foi um presente de Deus para mim. Ela veio justamente em uma das épocas mais difíceis para mim, quando não tinha tanta atenção do Renato e me sentia a pior mãe do mundo… Também vejo o quanto foi bom ter passado por tudo que passei com o Filipe, hoje posso fazer as palestras da “Transformação Total de Pais e Filhos” ao lado do Renato, todos os domingos, às 18h.

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