Diário : Eu Não Entendia assim (6ª Parte)

Vera

Imagine você, ficar distante de casa durante 2 semanas? Quantas coisas pendentes tem para resolver? Muitas! Tanto as coisas mais simples, como as responsabilidades que dependem apenas de si. Assim estava eu, quando cheguei do Leste Europeu.

Porém para dar continuidade a este assunto, tenho que dizer o que aconteceu antes da viagem ao Leste Europeu. E aqui vai:

Nos dias após o meu aniversário (18 de Janeiro de 2015), eu recebo uma mensagem da Vera. Na realidade não era nem uma mensagem, era uma carta. E ali, ela comentava as decisões que tomou na vida em relação à sua própria fé. De como ela estava atualmente, os dias em que frequentava a igreja. Ela via o quanto Deus a havia abençoado com um trabalho na igreja. O quanto a oração sincera era eficaz. Ela ainda recordava as minhas palavras dizendo: “Vera, ore filha! Diga a Deus tudo o que se passa consigo! Conte com Ele como seu amigo.” Eu disse-lhe mais ou menos isso, na primeira reunião que ela assistiu na igreja, na Festa dos Tabernáculos.

Enfim, ela estava muito feliz com os resultados que a fé dela lhe estavam a proporcionar. Mas o motivo maior desta carta, era sobre uma pergunta que ela tinha e que dependeria do nosso apoio.

Ela estava disposta a obedecer, mas tinha uma questão no ar e que não estava muito clara para ela. Deus mostrou-lhe o quanto a tinha abençoado e também mostrou que ela tinha que valorizar a família que Ele lhe tinha dado.

E agora? E o trabalho que Ele lhe havia concedido? Como conciliar o facto de estar com a família e o trabalho? Estaria ela desprezando um e valorizando o outro?

Havia um tipo de “confusão”. Queria servir a Deus. Mas o que deveria fazer? Era essa a pergunta que ela me trazia.

Oh! Imagine-me ao ler aquela carta! Queria dizer a “todo o mundo” a carta que recebi! Mas estava bem consciente e tranquila. Eu sabia que Deus iria fazer a obra, e não tinha nenhuma dúvida disso.

Mas eu fiquei tranquila. Tudo o que Deus me proporcionou no ano de 2014 através da fé Nele, fez-me ser equilibrada. As experiências de estar a viver a fé, cada ano e em cada mês, não eram uma coisa passageira, mas algo que me trouxe, de certa forma, algo estável e duradouro no meu jeito de ser. Logo a seguir, enviei um e-mail falando acerca da carta aos meus pais; da novidade.

Agora, tudo o que eu tinha que fazer era ter a aprovação do meu pai e do Júlio. Eu queria responder que sim! Que ela era bem-vinda ao seu lar e etc. … Mas aguardei ter o “Sim” de Deus, por parte daqueles de quem eu também dependia de uma resposta. Do meu pai, dependia da sua aprovação quanto a viver connosco, na Obra de Deus.

A minha mãe foi a primeira a responder: “Filha, Viviane. Diga-lhe que ela seja bem-vinda a casa! Estamos de braços abertos para aceita-la!” O meu pai tardou mais em responder porque estava ocupado. Mas também a resposta não foi diferente. Ele disse: “Por mim está aprovado!”

E o Júlio nem se fala, a resposta é óbvia! “Sim!”

Meu Deus, quando recebi esse “Sim”, confesso que chorei muito. Pois durante o tempo em que perdi os meus filhos, por não ter sido concedida a guarda, só existia a resposta: “Não!” E porque não? “Não”, porque com os demais que adotaram deu certo, e comigo foi do jeito mais doloroso possível. “Não”, porque quando via as mães diante de mim a cuidarem dos seus filhos, eu pensava: “Elas podem ter esse prazer, eu não. A mim, não me foi concedido este prazer. Eu tenho que conviver com a dor de nunca ter o direito de tê-los, para além daquilo que estou a sentir ser injusto. Injusto porquê? Porque estou no Altar e é para dar a vida e não para viver os meus sonhos pessoais.” E a condição que vivia naquele momento, era da dor que não passa; a saudade que não sai. “Eu terei que dar a Deus o meu sonho e desejo, sem ter nenhuma garantia de que essa dor sairá, para apenas poder servir, servir ao meu Senhor.”

Mas nesse dia, em que recebi o SIM de Deus, chorei muito de alegria, por receber da parte Dele o direito de tê-los em minha vida. Tantas lágrimas, tantas dores, tantos pedidos no altar, tantas renúncias pessoais para um dia eu ouvir de todos, em comum acordo, um “Sim”!

Aquele sim tinha um significado muito grande para mim. A iniciativa era da Vera, foi ela quem ouviu de Deus a direção para reconhecer o valor da sua família. Eu já antes estava segura de que Deus iria fazer a obra. Estava tão certa, que estava tranquila. A tal ponto que não ficava ansiosa pela sua chegada. Mas quando tudo aconteceu na realidade, a minha alma desfaleceu. Não pude conter as lágrimas, sem nem eu mesma saber o motivo de estar a chorar.

A Vera por fim reconheceu, tendo-o ouvido da parte de Deus nitidamente. Na época ela nem estava liberta ainda. E veja a ação de Deus, agindo em prol de mim. Em outras palavras, Ele me servindo.

[/blockquote]”Se alguém me serve, siga-me, e onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará.”(Jo.12:26)[/blockquote]

Falei com a Vera, respondendo à sua carta: “Seja bem vinda, filha!” Ela ficou emocionada, chorou de alegria. Algo surpreendente se estava a passar dentro dela, sem ao menos ela saber. Uma paz e alegria tão grande inundava o seu ser, que até ela mesma expressava.

Passado um dia, ela diz que tinha um porém, um cãozinho, que acabara de comprar. E que se possível a deixassem levar. E depois de alguma insistência, conseguiu a aprovação do pai para a trazer. E agora tínhamos que esperar toda a “papelada” dos documentos para ela poder viajar.

Bom, até aí tudo bem. Viajámos para o Leste Europeu conscientes que a Verinha viria morar connosco. Mas ao voltar do Leste Europeu, na minha primeira reunião com o Departamento, na 2ª feira, eu recebo uma mensagem da minha mãe dizendo: “Filha, falei com a Verinha e ela não quer mais morar com vocês em Portugal. Disse que está indo muito bem na fé dela e que ama as pessoas com quem trabalha. Gosta muito de estar próxima do Tio Romualdo.”

Ok! Em meio à reunião eu recebo uma mensagem destas, que gela o meu coração e que ao mesmo tempo o faz bater forte. Uma decepção! Imediatamente um sentimento de rejeição tipo: “Tem alguém melhor, e com quem me identifico mais para eu ficar!” Assim me senti. Trocada por outra família.

No meio dessa reunião com o Departamento, enquanto falava, ao ler aquela mensagem fria e congeladora, os meus sentimentos queriam aflorar naquele exato momento. Eu lembrei-me exatamente do meu objetivo: “Não me vou servir! Não vou parar para me focar na minha necessidade.” O meu pensamento saiu e voltou ao assunto daquela reunião, sem ninguém perceber. Depois recebo uma mensagem da Vera, também dizendo que queria falar comigo. Já ali, deixei uma mensagem que falaria só às 20hrs.

Era uma 2ª feira, dia 9 de Fevereiro. Resolvi tudo sobre aquele departamento, aliás, naquele dia tomámos decisões que vieram a cooperar para o seu desenvolvimento. Tudo fluiu. Depois atendi mais 1 departamento. E já no fim da tarde, fui cortar o cabelo. Entretanto, a Vera já estava a mandar mensagens antes da hora marcada.

Dava para entender que ela estava ansiosa. E eu estava ferida e decepcionada. E ainda assim, tinha que ser compreensiva com ela, porque não seria justa se deixasse os meus sentimentos tomarem conta de mim.

Estava naquele preciso instante, um tanto necessitada de uma palavra acerca do que deveria dizer-lhe. Olhei ao meu redor, não tinha o Júlio, nem uma amiga sequer. Como vou fazer?

Fui ao banheiro naquele dia, já um tanto atrasada quanto à hora marcada, e disse a Deus: “Olha Deus, não tenho muito tempo para fazer uma oração onde possa chorar e dizer tudo aquilo que sinto, mas tenho um compromisso com ela agora. Eu só peço que o Senhor me ajude a falar com ela, já que estou muito chateada. E se eu falar do jeito que estou, não será como tem que ser falado. Por isso eu Te peço que fales por mim. Em Nome de Jesus.” Orei, e logo liguei para a Vera para conversarmos.

Liguei, e acredite, já é tão difícil falar com ela, agora a chamada estava mal. Ela mal me conseguia escutar. Eu já tensa… Fui para outra sala e dali começou a ouvir bem. E quando começámos apenas a nos saudar, chega o Júlio. “Ai graças a Deus!…” dizia eu, “Agora ele vai falar e vai dar uma força aqui!” E lá vem o Júlio conversar com ela. E mal ele chega, já exponho tudo acerca da situação. Ele calmamente, tranquilo, sem nenhuma persistência, diz: “Olha Vera, se você não quiser ficar, fica tranquila, você volta e etc. …”

Oh oh! Ao ouvir aquilo, embora entendendo a compreensão porque ele não estava a forçar nada, no entanto a minha fé não dizia isso! O meu rosto já estava todo vermelho, manchado… eu estava tensa. Eu apenas escuto o Júlio falar, enquanto a Vera, com lágrimas nos olhos, sentido-se compreendida pelo pai.

Ao ver aquela cena, respeitei as palavras do Júlio. Fiquei literalmente sozinha com a fé que batia dentro do meu peito. Que na realidade foi a minha luta. Esperei até ter oportunidade, também para falar de tudo o que estava dentro de mim.

Não me lembro exatamente das palavras, mas ele dizia assim: “O Espírito Santo vai te mostrar.” Só sei que entrei na hora, e disse: “O Espírito Santo já está te mostrando Vera!” E continuei falando da minha fé… E o Júlio só dizia: “Sim.”

Em outras palavras, não anulei a minha crença! Não! Nem diante do Júlio e nem diante de uma filha que mal me conhecia. Sabia que no instante parecia que eu era a incompreensiva. Mas lá quero ouvir os sentimentos ou aquilo que ela acha, vou falar da minha fé!!!!

E ao mesmo tempo também o comportamento do Júlio falava. A sua forma de falar transmitia-me tanta paz, tanta segurança, que ao fim eu já intercedia a Deus para deixar de ficar tensa.

O Júlio terminou e só ficámos nós duas.
E ali era o nosso momento!

A Vera estava com bastante precaução sobre a decisão dela, porque sabia que isso envolvia tanto a ela quanto a nós, que somos parte da sua vida.

Então comecei a falar… E ao falar, sem tensão, o Espírito Santo foi me dirigindo, ao ponto de me fazer entender o motivo dela estar a agir daquela forma. Muito interessante! A nossa conversa foi benéfica, tanto para mim quanto para ela. Mas havia paz entre nós, e nada de “forçar a barra” para o meu lado. Até porque não era isso que eu queria.

E assim foi. Despedimo-nos em paz e ela deu 2 semanas para vir viver connosco. Enquanto eu fui em paz dormir.

No meio da madrugada a Vera manda-me uma mensagem, dizendo: “Mãe, tem como eu ir amanhã? Eu quero chegar amanhã.”

Assim foi, ela chegou no dia 11 de Fevereiro de 2015.

Viviane Freitas

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