Mudança

(Voltando ao Passado – 16ª parte)

Preparo as minhas malas, e vamos de carro pelo deserto de California a Houston. Uma viagem longa, quase sem postos de gasolina; vamos com uma expetativa grande.

Chegámos a casa do Bp. Romualdo. Com a recepção sempre calorosa da sua esposa Márcia e do Bispo.

Os meus olhos brilharam, era a minha oportunidade! O bispo iria ensinar-nos. Nós já estávamos destinados a uma igreja distante de Houston. Mas mesmo assim tudo era uma grande oportunidade. Deixei os meus dois gatos com uma família de pastor, até chegarmos e termos aonde morar.

Na casa da Márcia, era engraçado: Já existiam 2 casais morando lá, incluindo eles. E ainda nós, apenas por uma temporada.
Lá, a minha vida já estava ativa a uma verdadeira dona de casa. Fazia limpeza, ajudava no almoço e em tudo o que tinha que ser feito.

Ao preparar o almoço, eu, Márcia e a outra esposa, era “risada” porque parece que tudo era novo para todos. Mas nos adaptámos muito bem. Fazíamos tudo juntinhas. Aonde estava uma, a outra estava ali também para ajudar. Todas faziam tudo com a maior satisfação.

Passados alguns dias fomos enviados para Brownsville, Texas. Bem na pontinha do Texas, fronteira do México. Era uma cidade pequena e bem pacata, onde o idioma praticamente daquela cidade era o espanhol.

E aqui começa uma outra história.
Mudámos para lá, onde já tinha a igreja prontinha. Mas não tinha lugar ainda para morar. Então íamos para um hotel de passagem, somente para dormir, bem próximo à igreja.

Estávamos à procura de lugar para morar. Mas infelizmente, os dias foram passando e não achávamos um lugar, de acordo com aquilo que nos foi orientado.

Creio que ficámos a morar no hotel durante 1 mês e meio. As nossas roupas tinham que ficar na mala do carro, porque o quarto era alugado por noite.

À noite, havia barulho de “bagunça” de jovens, e de gente a falar alto. Foram noites mal dormidas a ponto de tentarmos morar na igreja, mas como não havia um banheiro com chuveiro, não tínhamos como viver lá.

E nesse período, tínhamos que comer fora. Na igreja não havia cozinha. Não tinha casa. E então tínhamos que comer fora. Nos primeiros dias, comíamos sem muita preocupação, mas com o passar dos dias, foi pesando o custo diante daquilo que recebíamos. E então, tínhamos que escolher o almoço ou o jantar. Quando almoçávamos, o resto do dia era sustentado com biscoitos e “besteirinhas”. E assim íamos levando a vida.

E com grande satisfação estávamos ali. Eu sabia muito bem.

Até que um dia, o Júlio encontra uma casa para irmos viver. Eu nem vi, nem nada, só cheguei ao local do destino… e o “show” começou!

Cheguei à casa e já tinha tudo: Talheres, móveis e o necessário para podermos viver. Mas tudo era bem sujo. Quando abro a gaveta da cozinha e vejo os talheres enferrujados… começo a chorar.

Sem querer chorar, não continha as lágrimas, que tinham “som” de choro com dor e vergonha. E não conseguia parar de chorar, durante o tempo em que observo as coisas da casa. O Júlio começa a rir-se de mim. Para ele, como já havia passado por tanta coisa na Obra de Deus, aquilo não era nada. Mas para mim, era a minha primeira vez.

E eu, que sempre me julgava forte no sentido de me sentir preparada para o que “der e vier” na Obra de Deus, em termos de “escassez”, estava ali, a chorar sem ao menos me poder conter.

Que vergonha! Estava com vergonha de Deus e do Júlio. Eu, que afinal pensava que isso não me atingia… olha eu aqui, chorando.

E quando eu abro a porta debaixo da pia da cozinha, vejo aquela coisa que “gruda” a barata. Quando vejo isso, os meus olhos arregalam-se e saio a correr… “Ai, Júlio aqui tem barata!!!!” E tenho o meu “ataque” de pavor de baratas. O “ataque” era o pensar que as baratas estavam ali!

E incrível, em todo o lugar que eu abria os armários, tinha aquele “troço”!

Ao sentar-me no sofá, que tinha o fundo branco e desenho de samambaias, vejo o quão encardido estava.

“Meu Deus!” Abraçava o Júlio. E o Júlio rindo de mim.
E eu muito séria no meu drama, chorava e abraçava-o.
“Oh Júlio, desculpa! Eu não quero chorar!”
O meu amado Júlio, amparava-me e dizia: “Isso não é nada, mimiu! Não fique assim!”

Mas eu, muito ansiosa, não via a hora de sair daquela casa.
Naquele mesmo dia, não aguentei… Liguei para o Bp. Romualdo, com a “cara de pau”: “Bispo… desculpa, mas achámos uma casa, que é horrível.” Não me lembro se falei com o Bispo ou com a sua esposa. E chorava ao telefone.

Incrível, eu fiz esse “papelão”! Mas fiz mesmo!

No dia seguinte, o Bispo Romualdo vem a Brownsville e foi procurar outro lugar. Ele veio resolver uma “vergonha” minha. Pois eu não estava a saber lidar com a vida daquele jeito.

Não nos tinha sido imposto viver naquela casa. Mas por falta de paciência e por não encontrarmos dentro dos padrões, foi escolhido algo assim pelo Júlio.

E então o Bp. Romualdo achou um lugar para vivermos. E ficou resolvida a situação de onde morarmos. Mudámos-nos logo em seguida daquela casa horrível, para essa outra.

E então, eu muito feliz da vida. Começo a minha limpeza iniciando pela cozinha. Limpo os armários, graças a Deus não tinha nenhum daqueles “troços” de grudar a barata, e vou fazendo por etapa, cada parte da cozinha. E quando vou limpar a geladeira, ao abrir, sai uma “barata voadora” e entra dentro da minha blusa.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!

“Ai não, vou-me embora daqui!” Eu disse isso bem alto para mim mesma, pois só estava eu na casa. E em seguida, sem pensar, pego na minha bolsa para sair da casa… dou de frente com a porta de saída e vem uma voz mansa e suave (a voz da fé inteligente), que diz:

“Outra vez, Viviane! Você não acha que fez o cúmulo, com o Bp. Romualdo vir até aqui para procurar um lugar para você morar, e agora de novo você fica com medo da barata?!!!! Já não basta o que fez?”

Quando ouvi essa voz, eu disse: “Realmente, o que estou a fazer? Tá amarrado! Eu vou procurar essa barata, e vou matá-la, ela vai ver só! E fui atrás da barata…. procurei em todo o recanto da cozinha, e ela desapareceu. Nunca apareceu!”

Era realmente uma coisa que eu tinha que vencer, e sozinha. Não adiantava a Palavra de Deus naquele momento, era a atitude contra o meu eu!

Continuei a limpar o resto da casa, a lavar e a passar para deixar tudo direitinho.

Essa experiência… nunca mais esqueci! Uma vergonha, mas só vivendo para descobrir realmente o que nós somos capazes de fazer. A ansiedade leva-nos a precipitar e também a não pensar de forma inteligente. Não conseguimos nem avaliar as consequências de uma iniciativa assim, só pensamos, no momento, em nos agradar.

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