Voltando ao Passado – 43ª Parte

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Como controlar um sentimento de mãe vivido por 3 anos, e “estancá-lo” de repente?

Imagine você, saber que os seus filhos não têm mais como voltar! Quanta dor! E as lembranças que ficaram na sua cabeça! E a saudade, como lidar com ela? E o pior, para mim, era não entender o facto de ser uma pessoa de Deus e passar por tudo isso, sendo que pessoas que nem sequer se importam com Deus, vivem com os seus filhos e às vezes até os maltratam!

Como ficariam essas crianças? Um dia estiveram conosco, outro dia estavam distantes. Como estaria a cabeça dessas crianças? Além de se sentirem abandonadas pelos pais biológicos, estavam aparentemente sendo rejeitadas pela 2ª vez!

Tantos pensamentos me vinham rodear.
E as pessoas que nos conheciam? Indagavam, a princípio, aonde estavam as crianças…
Como era duro lidar com essa pergunta. Para além de estar tentando controlar os meus sentimentos, tinha que fazer também as pessoas compreenderem a situação que estávamos vivendo.

Assim como nós não conseguíamos entender o motivo pelo qual o estávamos passando, tinha pessoas também indagando o que havíamos feito com as crianças. Algumas até pensaram que não os queríamos mais. Houve rumores que estávamos rejeitando as crianças pelas dificuldades.

E o que dizer às pessoas? Nada, pois até pelo assunto ser falado, nos agoniávamos.

A nossa rotina seguia igual. O Júlio seguindo com o seu trabalho na Obra de Deus, passando fé, vida aos necessitados. E eu voltei a uma rotina de esposa sem filhos. Viver com a dor, indo à igreja, lidando com outras esposas, sem ao menos poder sequer contar com elas.

Dores e mais dores. Parecia ser incontrolável a dor. Mas aparentemente controlada, porque não chorava. Ficava “encravada” dentro do meu peito. Nesta época parece que esquecia de respirar, de repente suspirava bem profundo, tentando recuperar essa falta.

Vivi situações bem estranhas em relação a tudo o que se passava no meu interior.
Uma vez consegui detectar algo horrível dentro do meu ser: Indo ao mercado, fazendo compras, aconteceu de uma criança chorar por alguma coisa, consegui escutar desde o outro corredor e, instantaneamente, eu disse para mim mesma: “Vê… foi ter filho! Agora aguenta!”

Quando disse isso, no meu íntimo, percebi que não era uma reação natural de Viviane. Nunca me incomodei com nenhuma criança antes. Claro que o choro de uma criança não é agradável. Mas tudo o que estava ligado a qualquer criança e mãe, parece que não aceitava muito bem. Pois, dentro de mim, aparentava ter uma revolta… Não conseguia entender no meu íntimo, inconscientemente, que alguém tivesse filhos e vivesse tudo em sua função normal. Parecia que era um tipo de inveja.

Nunca fui assim, invejosa pelo que não tinha. Mas diante de tantas dores e conflitos, fui tendo uma reação desconhecida e vergonhosa.

No mesmo instante, disse comigo mesma: “O que estou dizendo no meu íntimo? Meu Deus, não posso ouvir um choro de uma criança que fico com raiva da mãe? Porquê isso?”

Era uma confusão de sentimentos, misturados com revolta.

Mas tinha consciência que tudo o que estava sentindo não era o que iria ditar a minha vida. Pelo contrário, ia-me ensinar a entregar. Isto é, iria lutar contra as defesas da minha carne, que por fim, estava revoltada com a vida.

É na hora da provação que se conhece quem realmente somos e que tipo de fé professamos.

Deus permitiu tudo isso acontecer, e na realidade, no momento, foi tudo muito doloroso, mas ao mesmo tempo me deu uma experiência que jamais teria, se fosse apenas com a consciência da Palavra de Deus.

Deus é tão paciente e tão misericordioso. Só Ele para nos entender e nos ensinar.
Ele não me condenou, não me repreendeu nessas horas. Pelo contrário, Ele ficou em silêncio. E deixou-me pensar comigo mesma para então tirar as minhas próprias conclusões, diante da fé e da situação que estava vivendo.

Isso para mim é lindo! É respeito. É o espaço que precisamos para colocar em ordem na nossa própria cabeça, a situação. E medir com a fé e não somente com as emoções.
As emoções são os primeiros sintomas, todos nós sentimos, mas a fé consegue discernir tudo; pesa, avalia e mede, e só o tempo ou o silêncio podem dar isso.

Diante de muitas coisas, não conseguimos entender o que se passa conosco, no momento, mas lá na frente certamente teremos alguma resposta. E acompanhando o meu Diário, vocês vão entender o motivo dessas dores. Vai entender até as reações das pessoas que não a compreenderam como você esperava.

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