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“Spotlight” mostra escândalo de pedofilia na Igreja Católica

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PedofiliaBaseado em factos reais, o filme mostra a investigação de uma equipa de jornalistas do Boston Globe ao mundo da pedofilia, que abalou a igreja católica nos Estados Unidos e no mundo

O papa Francisco ainda tem muito a fazer para provar que a igreja luta com seriedade contra a pedofilia, considera Thomas McCarthy, diretor do filme “Spotlight – Segredos Revelados”, sobre a revelação de um escândalo envolvendo a hierarquia católica em Boston. O filme tem a sua estreia prevista em Portugal para 14 de janeiro de 2016.

A investigação permitiu descobrir como a hierarquia católica local, presidida pelo cardeal Bernard Law, encobriu, de forma sistemática e cínica, os abusos sexuais cometidos por mais de 90 padres em Boston e nos arredores.
Os artigos publicados renderam aos jornalistas do Boston Globe o Prémio Pulitzer, o mais importante prémio de jornalismo dos Estados Unidos.
A equipa de jornalistas descobriu que a Igreja Católica sabia dos casos de pedofilia que ocorriam nas paróquias há anos, mas a grande maioria dos casos era abafado pelos bispos católicos, que tentavam manter tudo em segredo e não puniam os padres envolvidos, apenas os transferiam de região, deixando-os em contacto novamente com crianças e jovens, o que permitia novos abusos.

A cobertura jornalística fez com que diversas outras vítimas de outras cidades dos Estados Unidos ganhassem coragem para denunciar os crimes cometidos por religiosos católicos, o que despertou uma crise a nível global para a igreja católica.
Quase 1.500 vítimas testemunharam e o escândalo de pedofilia foi seguido por inúmeras outras revelações, envolvendo membros da Igreja por todo o mundo, particularmente na Irlanda.

Dez anos depois, o Vaticano afirma ter aprendido as lições do passado e que os procedimentos em vigor para impedir tais crimes evitaram a repetição de escândalos similares. “Acredito que o Papa tenha consciência disso. Se eu penso que o problema está resolvido? Não. Se eu acho que a Igreja tem feito o que deveria fazer? Realmente não”, disse Thomas McCarthy à agência AFP.

O filme fala ainda das feridas que continuam abertas. A dor de mais de mil pessoas que foram abusadas, as descrenças que sentiram acerca da igreja e os traumas que ainda persistem, os quais levaram muitas das vítimas ao abuso de drogas, consumo de bebidas alcoólicas e ao suicídio.

O ator Mark Ruffalo, um dos protagonistas do filme, assume que a Igreja não lida bem com o problema, apesar de ter um Papa mais sensível. “A minha família é muito católica e eu tenho essa educação, por isso, percebo o que se passa. Mas as palavras são diferentes dos atos, tenho esperança no papa Francisco, mas ainda não vimos nada a ser feito para corrigir a situação”.

“Doloroso e horrível”

A luta da Igreja foi marcada por várias etapas: em 2011, o Vaticano instou todas as conferências episcopais a colaborar com os juízes civis e a desenvolver normas contra os padres culpados ou suspeitos; em 2013, a Santa Sé reforçou a legislação penal, acabando com a impunidade dos seus prelados; em 2014, a Pontifícia Comissão para a Proteção Infantil, constituída por 17 especialistas, incluindo ex-vítimas, foi criada. Em junho, o Vaticano também estabeleceu um corpo para julgar pela lei canónica os bispos que protegeram padres pedófilos.

“Estes homens agiram em águas turvas”, acrescentou o diretor. “Tudo o que eles investigaram era doloroso e horrível, mas eles foram além e espero que o público entenda que o seu trabalho é colocar as verdadeiras questões, até mesmo as mais difíceis”.
Para Thomas McCarthy, este é “o grande poder da imprensa, algo que eu, como um ‘civil’, não seria capaz de fazer. Questionar as pessoas sobre como elas foram abusadas, como aconteceu… Mesmo que seja importante, que seja dito”.

Os casos

A igreja católica é abalada há vários anos por uma série de escândalos ligados à pedofilia, principalmente na Áustria, Bélgica, Irlanda, Alemanha, Holanda, França, Espanha, Portugal e Estados Unidos.

Em 2004, por exemplo, uma investigação criminal revelou 4.400 padres pedófilos nos Estados Unidos, entre 1950 e 2002, e 11 mil o número de vítimas.

Na Holanda, milhares de menores sofreram abusos sexuais dentro da igreja católica, entre 1945 e 2010, e 800 autores desses crimes foram identificados.

Na Irlanda, a dimensão dos abusos reconhecidos por diferentes inquéritos é tão grande que houve quem os descrevesse como “o holocausto da Irlanda” – estimativas independentes apontam para mais de 10 mil crianças violentadas ao longo de 70 anos.

Na Áustria, a comissão que investiga os casos de abusos sexuais e pedofilia na igreja católica diz ter pago mais de 10 milhões de dólares em indemnizações às vítimas. De acordo com a comissão, mais de mil denúncias foram apresentadas e 600 pessoas receberam compensações pelos abusos físicos e sexuais.

Na Bélgica, o relatório final da Comissão, criada pela igreja católica para receber denúncias de vítimas de abusos de clérigos, registou 475 abusos sexuais e o suicídio de 13 vítimas, entre os anos 50 a 80.

Na Alemanha, o escândalo afetou 19 das 27 dioceses católicas. Mais de 280 mil residentes na Alemanha deixaram a igreja católica em 2014.

Na França, a igreja católica anunciou que nove sacerdotes foram presos por atos de pedofilia e 51 foram acusados. Segundo uma investigação realizada pela Conferência Episcopal da França, outros 45 padres acabaram de cumprir a sua sentença.

Em Portugal estão referenciadas sete situações de abusos sexuais ocorridas nos últimos 10 anos, por padres e funcionários em instituições tuteladas direta ou indiretamente pela igreja. Um padre foi condenado a 10 anos de prisão.

Na Espanha, uma suposta rede de padres pedófilos abalou a igreja. A Justiça expediu mandados de prisão para 12 pessoas acusadas de pedofilia, entre elas dez sacerdotes.

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